Estúpida falta de seus atrasos
Que, misturados aos meus,
Significam uma vida
Poética falta de sua essência
Que, misturada à minha,
Produzia o perfume dos sonhos
Elementar falta de sua voz
Que, misturada à minha,
Produzia o próximo silêncio da noite
Compreensível falta de suas ausências
Que, misturadas às minhas,
Significam toda a onipresença
Tudo o que deixou de existir
Provoca ecos da antiga existência
Nada do que restou
Pode ser aproveitado
Pois, de repente, há coexistência
Entre nuvens carregadas
Formando meu céu
(um frio que usa cachecol)
E um sol escaldante
Beijando meu chão
(com lábios quentes de verão)
Tornamo-nos intocáveis
Impassíveis
Invulneráveis
Afinal nem mais nos tocamos
Esquecemo-nos das paixões
Meu olhar diabólico
Não mais influencia
Seus momentos de perdição
Qualquer despertar em lençóis amigos
Implicará numa crítica análise
De meus cabelos
Entretanto todos estão surdos
E imóveis
E, no meio da manhã,
Já não ouço o burburinho da água
Daquele banho fora de hora
Que eu jamais notaria
Não fosse o frio das cobertas
Desumanas, insensíveis
Talvez seja o momento
De não morrer de fome
De sentir muita fome
E comer
De beber à madrugada
E fazer homenagens etéreas
Às duas da manhã
Fumando meu último cigarro
Por fim abandonar
Finalmente me entregar
A qualquer adeus
De súbita qualidade
Por vezes surgir
Freqüentemente me abrir
A qualquer saudação
De estranha origem
Acontece que não sofri
Como pensei estar sofrendo
E nem temos vivido
Como penso estar vivendo
Desde que me sensibilizo
Com uma música ou outra*
E não me mobilizo
Em busca de ninguém
Sei que não foi assim
Por isso evito e me afasto
Termino como comecei
Pois é estúpida esta falta
Poética
Elementar
Incompreensível
Desde que chegou
Preencheu-me de memórias
Agora, faça-me o favor:
Retira-te! Vai embora!
*”Torch”



Na categoria Débora Luise Machado