Parte

•Dezembro 23, 2011 • 1 Comentário

Coração dentro da vida

Em cordas flamejantes,

Rompendo-se, cortantes:

Imperiosa partida

*

Sombrios pensamentos

Simétricos, soturnos

Lamentos oportunos

De espíritos sedentos

*

Trágica lembrança

Faminta de receios

Devoras os enleios

De toda a esperança

*

Pendendo a consciência

Cansados, sempre aos prantos

Os pútridos recantos

Da astuta coerência

*

Il s’appele le fin des temps

Pour un autre triste exemple

Il  a fait le coeur dormir

Dans ce mort et saint plaisir.

Do sentir

•Junho 23, 2011 • 3 Comentários

Era como se julho fosse o prelúdio de tudo aquilo que fora. Impossível. Como uma coisa poderia preceder outra que já acontecera? Por outro lado, porém, se tudo era um ciclo, quem seria capaz de definir o início e o fim?

Talvez tivesse perdido a consciência. Ao longe, algodões doces esbranquiçados o faziam duvidar de que a causa das ruas molhadas fora a chuva.

Da janela do carro acompanhava o movimento tão prosaico de todas as tardes – o trânsito entediante e a constatação de que em São Paulo não cabe mais nem uma agulha. E se perguntava se queria voltar a casa e ligar a televisão, disfarçada de solidão ou se preferia estar ao redor de tanta gente sem deixar de estar só. Seriam questões contemporâneas mescladas a sentimentos medievais ou um pseudo-intelectualismo alienado?

Talvez fosse melhor seguir o fluxo, esquecer tudo aquilo que era, se juntar à multidão e beber até regurgitar. Agitar! Isso sim era divertido. Dormir sem sentir as mesmas angústias, aquelas frustrações que sempre o convidavam a entrar.

O mundo nunca se adaptaria ao seu modo de pensar e agir, a maioria das pessoas nunca enxergaria o que seus olhos enxergavam. Mas que pretensão era aquela!? Achar que tem a verdade guardada em uma caixa secreta? Ah, por favor… Agora não!

Talvez tivesse mesmo perdido a consciência.

Orvalho rubro

•Maio 16, 2011 • 3 Comentários

O amanhã não existe

Em função de um hoje que morreu

Ninguém o velou

Porque ele não existe

E quem existe sou eu

*

Quisera ser o hoje em função do ontem

E nunca existir também

Quisera jamais ver os versos

Ou saber de onde eles vêm

*

Mas é necessária a vida

Que nunca rogou por nascer:

Assim que se abre a ferida

Não há como o sangue reter

*

Esvai-se, calando os sentidos

Que gritam sem se conter

Inferno é o som da ida

Que ao se tornar partida

Insiste em AMANHECER.

O som do caos

•Setembro 29, 2010 • 4 Comentários

 Marrom

Frustração

Os teus dias, cinzas

Você, pensativo

Eu, apreensiva

Nenhuma notícia

Distância quase intransponível

Como uma seqüência alternada

De semibreves e colcheias

(E sei que isso vai passar) 

 

Vermelho

Solidão

Os meus dias, gélidos

Eu, angustiada

Você, introspectivo

Nada acontece

Não descubro o sentido

Perdi a razão

E como uma figura de pausa,

Silencio

(Mas saiba que isso também vai passar)

 

Um humilde manifesto a nós

•Setembro 5, 2010 • 11 Comentários

É isto o que somos.

 

Nós fumamos, bebemos, fazemos sexo e não somos o clichê da humanidade.

 

Normalidade.

 

Aconselhamo-nos a sermos normais e a comermos menos carboidratos. Nós assumimos que comemos o sabor de nossa mocidade. Temos o carisma da adolescência e o pudor dos adultos. Agora podemos nos rastejar sem medo e pregar as nossas alucinações sem drogas. Cabemos num mundo que não cabe em nós e que não cabe a nós. Vomitamos nas praças sem nojo. Apreciamos as pálidas derrotas da rotina. Trabalhamos! Então corremos em busca da força. O que podemos esperar é o que nos espera. Acabamos fadados ao destino. Assistimos à nossa própria vitória sem ao menos nos levantarmos. O espírito de nossos ideais é o ar. O corpo de nossa História é a próxima música. Comemos carvão, digerimos sódio, respiramos anfetamina. Nada nos impede de lutarmos contra a vida. Lutamos contra tudo sem conhecermos nada. Empreitadas de puro ódio! O amor é a fuga, hoje. Conhecemos um passado dentro de uma lente de aumento embaçada. Cuspimos o ancestral dentro do copo de nossas bebidas alcoólicas. Podemos castrar nossas próprias fases sem denominá-las. Assumimos a culpa e a satirizamos. Cumpra-se o que se tem de cumprir e não permitiremos revogações. Apertamo-nos entre conselhos, abominações, espaços curtos. Sabemos de nossa existência, pois não gostamos de senti-la. Não tememos demônios, somos seus aliados, pois os que se crêem demônios são nossas vítimas. Habitamos o mundo e não o pertencemos. Vivemos! E ninguém nos repudia. Somos a face da fé, somos o paraíso. Espelhamo-nos na profusão de desejos súbitos. Esta é a verdade, e consiga-a. Podemos voar sem sonhos, e saímos de buracos terrenos, profundos e invisíveis. Somos sexuais, inconseqüentes, astutos. Compreendemos as lições e as negamos. Não nos manifestamos perante as críticas sem antes julgá-las. Ajoelhamo-nos em face do eterno. Somos a eternidade! Chateia-nos o caminho da paz e, ainda assim, por ela guerreamos. Estamos entre um ponto e outro. Funcionamos.  Esperamos pelo futuro sendo um pretérito imperfeito. Ah, que se oprima a perfeição! Temos mãos para o suspeito. Choramos pelo impossível sem nunca perdê-lo de vista. E, por fim, cansamo-nos e dormimos. Espectros de desistência nos beiram sem nunca nos atingir. Cantamos! Sentimos!  Pulsamos! E lidamos com isso na passividade das sombras que carregamos. Absurdo é o tempo passar e nos levar com ele como se fôssemos sombras.

 

Que restemos! Que possamos prosperar! Que não nos tornemos as ruínas do templo da realidade! Que sejamos, que sejamos o futuro! E nada nos abraçará sem o temor de permanecermos. Somos, portanto, o imprevisível, sem nunca sê-lo, e o inexplicável sem nunca pretendê-lo. Podemos ser o silêncio imperturbável, mas nunca seremos inaudíveis. Portanto, ouça-nos! Ouça-nos para que sejamos ouvidos.

 

E calem-se

Entre idas e vindas

•Maio 16, 2010 • 1 Comentário

Encontro-me agora

No caminho da ida

Propensa à regressão:

Lenta e gradual

Por medo de achar a saída

Mas já não sinto igual

Reaparecem as incertezas

Então me lembro de que,

O caminho é do lado de lá!

Vou, então, me virar

Me esforçar pra mudar

Passos rápidos

Pra não ter como voltar

Estou determinada

E mais à frente

Me deparo

Com o que me propus a abstrair

Dou três passos

E paro,

Incapaz de seguir

“O caminho é do lado de cá!”

Uma voz grita

E não é a minha

Propondo-me leveza,

Convidando-me ao conforto,

Insinuando destreza

Será que devo mesmo partir

Ou (retro)ceder à emoção

Que existe dentro de mim ainda?

Encontro-me agora

No caminho da vinda

Propensa a regressão:

Lenta e gradual                        

Para encontrar, enfim, a saída!

A comemoração

•Fevereiro 28, 2010 • Deixe um Comentário

Comemoram as velas,
O bolo sobre a mesa,
Alguma garrafa
de champagne
Ainda acesa
Ou aberta
Ou vazia
Pouco importa
Vejo que chegam
Abraçadas
Duas sombras
Pela porta
Todos brindam
Às figuras informes
Não sei quem são
Ninguém sabe
Ninguém crê
Na suposição
De existirem
E é certo o fato
Humilde e sublime
Da comemoração
- Felicidades!
E caem os copos
Um estilhaço só!
Vidro, bolo, fogo
E sombras
Pelo chão
Efeito sutil
da Memória
Há quem, no glacê,
Ainda escorregue
E se corte com os cacos
Do passado
E possa sentir queimar
Arder na própria carne
Como heroína pelas veias
Já exangues
Por serem sombras
Não somos nós
Já éramos assim?
Quem se importa?
Realidade chula
Morta
Nem me dei ao trabalho
De os olhos abrir
E tudo limpar, e tudo polir
Fiz tudo, tudo mesmo
Mesa, cor, espuma
O cheiro um tanto acre
Dos votos, do massacre
Eu fiz tudo sumir
Dei-me o direito
De criar como quisesse
Versão ora sombria
Ora alva, reluzente
Contudo o que eu via
E vejo quando quero
Involuntariamente
São corpos conhecidos
São faces luzidias
De toda aquela gente
Talvez presa em meu sonho
Talvez livre em devaneios
Vagando ou vivendo
Fui eu que me escondi?
Alguns me encontrarão?
Não sei, não me preocupo
Há um ano que os invento
Há um ano que os procuro
Oh, meu Deus, como lamento!
E por onde andarão?
Há um ano que alimento
Esta triste elocução
- Aonde estão?
Aonde estão?
Voltam todos, voltam sempre
No irromper desta visão
Pois a data é permamente
E nela, ao poente,
Brindam cegas e dementes
As sombras da ilusão
Os produtos irreais
Que emergem desta paz
Desta minha doce paz
Corriqueira
Verdadeira
Alucinação
Em plena consciência
Ausência
Razão.

Enquanto isso…

•Janeiro 1, 2010 • 2 Comentários

Enquanto isso…

Coisas de verdade acontecem,

Pessoas embriagam-se,

Planos se desfazem

Por si só

Ao amanhecer

Olha-se no espelho

A imagem não é a mesma

Do dia anterior

E você nem percebeu

Mas o sol se põe

Já vai anoitecer

Talvez a lua brilhe

E invada o seu mundo,

Incapaz de reagir

Novamente, embriagado

Enquanto isso…

Sentimentos transbordam

E confundem-se

Por não caberem do lado de dentro

Pessoas distraem-se

Constata-se, então, que,

Há mais vida

Do que seria capaz de supor,

Mais escritos

Do que jamais poderia compor

E tudo que acredita inconcebível

É justamente o inverso:

Tens controle sobre a própria dinâmica

E naquela conversa

Teus olhos cheios de lágrimas

Deixaram os meus marejados

 Novamente, confusos

Diálogo à Memória (Roteiro Específico)

•Dezembro 4, 2009 • 1 Comentário

Estúpida falta de seus atrasos

Que, misturados aos meus,

Significam uma vida

Poética falta de sua essência

Que, misturada à minha,

Produzia o perfume dos sonhos

Elementar falta de sua voz

Que, misturada à minha,

Produzia o próximo silêncio da noite

Compreensível falta de suas ausências

Que, misturadas às minhas,

Significam toda a onipresença

 

 

Tudo o que deixou de existir

Provoca ecos da antiga existência

Nada do que restou

Pode ser aproveitado

Pois, de repente, há coexistência

Entre nuvens carregadas

Formando meu céu

(um frio que usa cachecol)

E um sol escaldante

Beijando meu chão

(com lábios quentes de verão)

 

 

Tornamo-nos intocáveis

Impassíveis 

Invulneráveis

Afinal nem mais nos tocamos

Esquecemo-nos das paixões

Meu olhar diabólico

Não mais influencia

Seus momentos de perdição

 

 

Qualquer despertar em lençóis amigos

Implicará numa crítica análise

De meus cabelos

Entretanto todos estão surdos

E imóveis

E, no meio da manhã,

Já não ouço o burburinho da água

Daquele banho fora de hora

Que eu jamais notaria

Não fosse o frio das cobertas

Desumanas, insensíveis

 

 

Talvez seja o momento

De não morrer de fome

De sentir muita fome

E comer

De beber à madrugada

E fazer homenagens etéreas

Às duas da manhã

Fumando meu último cigarro

 

 

Por fim abandonar

Finalmente me entregar

A qualquer adeus

De súbita qualidade

Por vezes surgir

Freqüentemente me abrir

A qualquer saudação

De estranha origem

 

 

Acontece que não sofri

Como pensei estar sofrendo

E nem temos vivido

Como penso estar vivendo

Desde que me sensibilizo

Com uma música ou outra*

E não me mobilizo

Em busca de ninguém

Sei que não foi assim

Por isso evito e me afasto

Termino como comecei

Pois é estúpida esta falta

Poética

Elementar

Incompreensível

 

 

Desde que chegou

Preencheu-me de memórias

Agora, faça-me o favor:

Retira-te! Vai embora!

 

 

*”Torch”

A lógica da racionalidade

•Agosto 20, 2009 • 1 Comentário

   Ele me deu um forte abraço e pediu uma chance. Eu, por minha vez, me deixei abraçar e me mantive em silêncio, sentindo seu coração bater forte. Não me contive e comentei o fato, que ele confirmou de pronto, sorrindo.

  Foi então que me dei conta: O meu coração batia tão forte quanto o dele. Seria eu capaz de todos aqueles sentimentos, brotando de uma só vez? Seria eu capaz de sentir aquilo que sempre ouvira os outros dizerem?

   Mas não dei o braço a torcer. Não, não! Nenhuma palavra a respeito. Talvez ele nem percebesse (como se eu estivesse, assim, tentando enganá-lo e não a mim). E a minha racionalidade sempre tão imbecil, sempre tão desagradável, gritava aquilo que eu, no fundo, sabia que não deveria ouvir: “Eu não posso, sou melhor, não posso!”

   Aquilo não tinha importância. Calei-me, entretanto, imóvel e incapaz de agir de acordo com os sentimentos mais profundos que me ocorriam. E ela continuava gritando, enquanto eu ensurdecia, ali, nos braços do rapaz.

 
Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.