Disseram-me para ouvir à tristeza como a uma doença que surge sem aviso e se espalha por meu sangue. É difícil, é por isso belo, vê-la ou senti-la formando raízes em mim mesma, em minha pura substância.
Não sei de nada, porém solitária assumo a minha dor. É como se pudesse mentir para mim mesma sobre o que mais me perturba. Noites não me bastam, eu não durmo mesmo. Eu viajo por meus desejos, o que os torna mais torturantes quando o dia se faz claro perante meus olhos abertos. Não gostaria de acordar, pois sei que meus romances se encerraram por enquanto. Onde está meu irmão, que sempre me acolhera nas madrugadas frias? Adormeci? Sonhei. Sonhar é o bastante para as almas conturbadas. Quase morro ao pensar, neste exato instante, que a realidade não existira.
Ah, sinto-me cansada, abrigada nos braços do sono, meu único companheiro fiel que me leva, induz a conhecer as ilusões mais belas e infinitas. Sou quem quero ser. Creio me tornar uma extraordinária criatura. Agradeço por terem despertado em mim este sentido, mas é atormentador pensar que não posso ainda controlá-lo. Agonia.
Fazem-se presentes as instituições da verdade. Verossímeis aparentam serem minhas horas de solidão. Só em minha própria solidão. Despropósito.
Quero gritar sem cessar a todas as vidas que me abrigam! Não posso suportar o torpor, não hoje, não agora. Se ao menos viesse o futuro neste instante e mudasse tudo em minhas visões já tão antigas, tão arcaicas, herméticas.
Rastrear e buscar são meus únicos instintos, entretanto de mãos atadas me encontro agora, meus pés estão a centenas de lares do chão que gostariam de tocar. Profunda é minha ilusão. Acreditar em quê? Não valem as palavras, menos ainda os murmúrios. Não existe fidelidade à dor. Ela é tão importuna! Ah, como me tortura agora!
Falo de verdades, verdades que estão aqui, que me consomem, que existem, fazem-se reais. Gostaria, verdadeiramente, de poder enganar a mim mesma em minha profunda ferida aberta.
A quem roubou, tomou e tem triturado meu coração: sobrou o vazio em meu peito. Colocasse uma rocha, uma pedra fria, um mármore! Não deixasse aqui esta ferida! Não morro, porém não vivo. O que seria mais mortal? O que seria mais sensível? Não desejo um sepulcro nem mesmo desejo os sentidos. Vou-me.
Chorarei em minhas espumas naufragantes um pranto que virá ou veio por mil vezes. Não percebo. Sei que decido e argumento. Sei que sou, porém, responde-me tu, a quem chamam Fortuna, onde estou, Inferno?