A lógica da racionalidade

•Agosto 20, 2009 • Deixe um comentário

   Ele me deu um forte abraço e pediu uma chance. Eu, por minha vez, me deixei abraçar e me mantive em silêncio, sentindo seu coração bater forte. Não me contive e comentei o fato, que ele confirmou de pronto, sorrindo.

  Foi então que me dei conta: O meu coração batia tão forte quanto o dele. Seria eu capaz de todos aqueles sentimentos, brotando de uma só vez? Seria eu capaz de sentir aquilo que sempre ouvira os outros dizerem?

   Mas não dei o braço a torcer. Não, não! Nenhuma palavra a respeito. Talvez ele nem percebesse (como se eu estivesse, assim, tentando enganá-lo e não a mim). E a minha racionalidade sempre tão imbecil, sempre tão desagradável, gritava aquilo que eu, no fundo, sabia que não deveria ouvir: “Eu não posso, sou melhor, não posso!”

   Aquilo não tinha importância. Calei-me, entretanto, imóvel e incapaz de agir de acordo com os sentimentos mais profundos que me ocorriam. E ela continuava gritando, enquanto eu ensurdecia, ali, nos braços do rapaz.

Sempre poesia, meu bem

•Agosto 12, 2009 • 4 Comentários

Todas as suas formas me trazem grande alegria. Posso olhá-las e engrandecer minha vida na estática e extática torrente de desejos que me assustam.

E você, de repente, está dentro de mim. Gosto dos beijos e dos fragmentos de sentimento que nele residem. Caem chuvas da sua fragrância sobre meu corpo sedento e eu me satisfaço naquele olhar pleno.

Acabo estando entre a fragilidade da paixão corpórea que se estende aos poucos em cápsulas de pura graça. Não há explicações para o que se abre em meu caminho quando você o cruza. Nem sei por que tento explicar meus motivos, nem tentaria, mas algo me faz querer fazer isso e eu o faço num momento de loucura bela como a sua.

Quero todos os dias poder estar entre braços e pernas, abraços, dores, carícias pulsantes e explosões de cura na luz baixa e simples que você emana de dentro da alma.

Saber que eu amo apenas o termo que inclui você entre todas as coisas que me fazem bem, estar apaixonada e formar em meu pensamento um lugarzinho para nós dois, fazem, de uma noite em prantos, um dia inteiro de você em meus sonhos.

E onde está você agora? Em algum mundinho particular? Não importa, pois você me convida a entrar.

Acredito que faríamos uma boa escolha estando você e eu numa porta de entrada para o sábio concerto de nossas músicas mais belas.

Acorde-me hoje sobre mim, afaste meu sono com sua voz sonora, cante para mim uma canção desconhecida e já fará parte de todos os meus ideais.

Eu o quero agora para todo o sempre, enquanto ele durar. Que seja por todos os tempos. Mude minhas incapazes vontades de esquecer alguns medos, traga para mim os piores castigos e transforme tudo em poesia de lirismo instrumental.

Tudo é belo, até a sua imperfeição. Quero a completude incorpórea.

Caia novamente sobre mim e domine o pouco tempo que ainda existe de nós dois. Certamente, faremos a história do caos em sintonia com o Universo, e todos os homens saberão que mesmo em base de tantas agonias, prevalece a curiosidade pelo bem e pelo mal.

Façamos de conta que eu sou o papel, então coloque em mim todas as suas palavras tocantes. Sairei feliz e radiante, serei um livro inteiro e a honra se estenderá sobre você, a beleza sobre mim.

Você vem…

•Agosto 4, 2009 • 2 Comentários

Você vem…

Passos largos                        

Com toda a sua grandeza

Pra me ensinar que a vida                                                 

Não é tão desprovida de beleza            

 

Você vem

Pra me dar um abraço,

E com o sorriso mais bonito

Sussurrar o motivo do atraso

                                                                                               

Você vem                             

Pra destruir todo o tédio                                                                             

Que abriguei aqui dentro

Sem me dar conta do tempo                                                                                 

 

Você vem

Pra me convencer

De que sou bem maior

Do que qualquer um pode ver

 

Você vem

Desmentir meus versos

Enganar as verdades mais profundas

Modificar meus traços

 

Você vem

Pra encantar meu mundo,

Trazer cor aos dias

Contar a piada mais ridícula

 

E você vai…

Passos lentos

Mas já tão pequeno                                                   

Anunciando que o que os olhos vêem

É uma questão, tão somente, de perspectiva

Idealização, quiçá… Expectativa

 

(Porém nunca mentira.)

Ausência

•Julho 14, 2009 • 4 Comentários

Vejo tua alma sorrindo em tua boca. Em teus olhos, vejo teus sonhos querendo existir. Algo em ti me atraiu como inocência ao culpado, que a deseja sem merecimento. E a tua transparência deixou tudo mais claro. Parece que chegaste com a metade que me faltava, dando ao meu dia uma luz que eu já não via; dando à minha sorte um caminho inesperado; trazendo-me a alegria de uma doce melodia.

Agora, sutilmente, eu me abandono dentro do teu coração, deixando que eu viva a me alimentar das tuas emoções. Na clareza da tua presença fico em estado de elevação contínua e meus pés abandonam o chão. Sinto os anjos ao redor conversando entre si. Percebo a verdade cada vez mais forte em mim, assim como a força se faz verdadeira; não temo, pois estou contigo, não na realidade, mas na minha alma.

Logo a vida já não tem mais importância, o que me integra ao mundo é mesmo esta função de apenas existir sendo que estejas e sejas meu único caminho, meu extremo, minha lucidez. E não preciso mais respirar, pois o ar não me basta, pura quero estar contigo dentro de mim, pura quero estar, jamais vazia. Se hoje meu corpo se abandona no mundo é porque minha alma alcançou a sublimação e graças a ti posso hoje viver em paz seja onde for, como for, nem mais tua presença é o meu álibi, agora tenho em tua ausência tua maior estada, eterna e pacífica.

Contrapartidas: Desejos e realidades

•Julho 1, 2009 • 3 Comentários

  Esqueceria os números, senhas todas, tamparia os ouvidos, fecharia os olhos e dormiria docemente. Sim, dormiria! Agora, mesmo neste lugar tão desconfortável e frio.

   (Sei, porém, da necessidade de manter os olhos abertos. Mesmo que eu não enxergue nitidamente neste momento por ter que olhar lá na frente).

  Perder-me-ia na distância quase intransponível entre necessidades e limites estabelecidos, encontraria o abrigo mais seguro e, com uma sensação de alívio, fugiria. Sim, fugiria! Neste exato instante, mesmo sabendo das possíveis conseqüências desta evasão.

   (É meu dever, entretanto, manter os pés no chão. Mesmo que, dessa forma, abdique parte da minha alegria).   

   Sentimentos fugidios são intermitentes dentro de mim, têm espaço, sentido e tempo significativos. Sabem se expressar em minha inquieta introspecção. Mas não posso me deixar levar nesta catarse, que é meu subterfúgio, reconfortante e ilusório.

Os meus fantasmas!

•Maio 25, 2009 • 6 Comentários

A noite passada antes que eu pudesse dormir eles vieram me visitar. Há algum tempo não os via, reflexo da última visita em que num surto eu disse que não os queria em minha vida, que não eram bem-vindos. Os mais sensíveis não voltaram mais. Mas a maior parte estava presente. 

A campainha tocou e eu me fiz em silêncio, sabia quem estava do outro lado. E embora soubesse que na porta estavam todas as trancas e cadeados, não me sentia mais protegida, por entender que não poderia mais fugir.

Como eu não abria, eles insistiam tocando. Uma. Duas. Três. Vinte vezes. Sabia que eles entrariam de qualquer forma, – fantasmas não precisam de porta para entrar – mas eu mostraria do que era capaz.

Enfim, entraram, sem grande cerimônia, dizendo-me que era tolice a minha não os deixar entrar. Talvez fosse mesmo, mas me sentia cansada de fazer aquilo que os outros queriam. Era hora de me impor e demonstrar a minha imensa insatisfação.

Contaram-me tudo o que eu já conhecia, me fiz de desentendida, entretanto, acenando com a cabeça com o olhar um pouco distante. Não podia prestar atenção, cair naquela armadilha toda a vez. Já conhecia o escopo final.

Muitas foram as vezes em que abri a porta e os alimentei. Outras vezes me senti mais forte e os impedi de entrar.

 Ás vezes perde o sentido e dá uma vontade enorme de desistir. Alguns prantos são essenciais: Mandar embora sentimentos que já não te interessam. E, muitas vezes, aquilo que não importa faz parte do seu campo de incompreensão.

Dias, talvez

•Maio 14, 2009 • 2 Comentários

Há dias que não como

Há dias que não me deito

Há dias que não choro

Há dias que não vivo

Há dias que não morro

Há dias que não caio

Há dias que não perco

Dias em que me assusto

Pensando não mais sentir

Dias em que não recorro

Ao meu vício de escuridão

Dias em que não há luz

Beirando a minha janela

Há dias que se perderam

Alguns dias atrás

E jamais serão só dias

Serão anos, serão vidas

Há dias que apodreceram

Meu corpo em meu espírito

Há dias nesta mortalha

Há dias nesta passagem

Há dias que não são dias

Há dias que não são tempo

Há tempos eu não existo

E passo despercebida.

O limite da razão

•Maio 10, 2009 • 1 Comentário

  Nunca um banho de água fria foi tão bem vindo às cinco horas da manhã. Mais uma noite sem dormir. Talvez fosse o calor. Mas poderia também ser angústia, preocupação, raiva. 

 Era sexta-feira, mas nem por isso havia mais disposição. O convite dos amigos fora invariável e lamentavelmente rejeitado por não haver outra saída além da própria solidão de que precisava.

  Quando chegou a casa se abandonou no sofá da sala e ao pensar no que permitiu que fizessem dos seus dias, seu estômago embrulhou e simultaneamente sentiu asco. Tão intenso que precisou ir imediatamente ao banheiro jogar fora aquilo que o incomodava. E não era só o almoço da uma hora da tarde que Fernando mandava para o tubo de captação de esgoto, eram todos aqueles sentimentos que abrigava há meses e que agora o seu corpo protestava. Aquela raiva e impotência que ninguém podia conhecer. O medo e a insegurança que ali iam sem pestanejar. A auto-piedade e o egocentrismo que se esforçava pra expulsar. Tudo que estivera sufocado saia com mais força do que podia imaginar. Era o espelho do que estava lá dentro.

  Até que se sentiu esgotado e sabia que ainda havia muito pra liberar, mas seu corpo não suportaria. Ao menos aquela sensação incomoda o havia abandonado. Sentia-se melhor. Havia deixado o desânimo, o desgosto, o desacordo e tudo o que o fazia mal percorrer o caminho oposto do seu.

 Dali pra frente teria que se esforçar pra manter um equilíbrio que já não reconhecia em si.

Apenas mais lamentações sem nenhuma credibilidade

•Abril 25, 2009 • 1 Comentário

Disseram-me para ouvir à tristeza como a uma doença que surge sem aviso e se espalha por meu sangue. É difícil, é por isso belo, vê-la ou senti-la formando raízes em mim mesma, em minha pura substância.

Não sei de nada, porém solitária assumo a minha dor. É como se pudesse mentir para mim mesma sobre o que mais me perturba. Noites não me bastam, eu não durmo mesmo. Eu viajo por meus desejos, o que os torna mais torturantes quando o dia se faz claro perante meus olhos abertos. Não gostaria de acordar, pois sei que meus romances se encerraram por enquanto. Onde está meu irmão, que sempre me acolhera nas madrugadas frias? Adormeci? Sonhei. Sonhar é o bastante para as almas conturbadas. Quase morro ao pensar, neste exato instante, que a realidade não existira.

Ah, sinto-me cansada, abrigada nos braços do sono, meu único companheiro fiel que me leva, induz a conhecer as ilusões mais belas e infinitas. Sou quem quero ser. Creio me tornar uma extraordinária criatura. Agradeço por terem despertado em mim este sentido, mas é atormentador pensar que não posso ainda controlá-lo. Agonia.

Fazem-se presentes as instituições da verdade. Verossímeis aparentam serem minhas horas de solidão. Só em minha própria solidão. Despropósito.

Quero gritar sem cessar a todas as vidas que me abrigam! Não posso suportar o torpor, não hoje, não agora. Se ao menos viesse o futuro neste instante e mudasse tudo em minhas visões já tão antigas, tão arcaicas, herméticas.

Rastrear e buscar são meus únicos instintos, entretanto de mãos atadas me encontro agora, meus pés estão a centenas de lares do chão que gostariam de tocar. Profunda é minha ilusão. Acreditar em quê? Não valem as palavras, menos ainda os murmúrios. Não existe fidelidade à dor. Ela é tão importuna! Ah, como me tortura agora!

Falo de verdades, verdades que estão aqui, que me consomem, que existem, fazem-se reais. Gostaria, verdadeiramente, de poder enganar a mim mesma em minha profunda ferida aberta.

A quem roubou, tomou e tem triturado meu coração: sobrou o vazio em meu peito. Colocasse uma rocha, uma pedra fria, um mármore! Não deixasse aqui esta ferida! Não morro, porém não vivo. O que seria mais mortal? O que seria mais sensível? Não desejo um sepulcro nem mesmo desejo os sentidos. Vou-me.

Chorarei em minhas espumas naufragantes um pranto que virá ou veio por mil vezes. Não percebo. Sei que decido e argumento. Sei que sou, porém, responde-me tu, a quem chamam Fortuna, onde estou, Inferno?

Abandono

•Abril 15, 2009 • 1 Comentário

Pois os meus sentimentos são guardados,

Sufocados pra que você não os veja

Não os sinta, não se entristeça

Imersa em meu próprio constrangimento

Desmorono e demoro a perceber o óbvio,              

Desconsidero pensamentos

   E perco oportunidades

   Anulo sentimentos

Refugio-me nas cores do barco

Pintado sob o céu ensolarado

 

Assim meu mundo se fecha:

Tranco a porta e esqueço as chaves

Fecho as janelas e não vejo o sol

E me distraio com a música,

Escondo-me no romance,

Abstenho-me no silêncio

E em ti, sem querer, me abandono

Restando apenas o vazio

De um simples movimento calado