A comemoração
Comemoram as velas,
O bolo sobre a mesa,
Alguma garrafa
de champagne
Ainda acesa
Ou aberta
Ou vazia
Pouco importa
Vejo que chegam
Abraçadas
Duas sombras
Pela porta
Todos brindam
Às figuras informes
Não sei quem são
Ninguém sabe
Ninguém crê
Na suposição
De existirem
E é certo o fato
Humilde e sublime
Da comemoração
- Felicidades!
E caem os copos
Um estilhaço só!
Vidro, bolo, fogo
E sombras
Pelo chão
Efeito sutil
da Memória
Há quem, no glacê,
Ainda escorregue
E se corte com os cacos
Do passado
E possa sentir queimar
Arder na própria carne
Como heroína pelas veias
Já exangues
Por serem sombras
Não somos nós
Já éramos assim?
Quem se importa?
Realidade chula
Morta
Nem me dei ao trabalho
De os olhos abrir
E tudo limpar, e tudo polir
Fiz tudo, tudo mesmo
Mesa, cor, espuma
O cheiro um tanto acre
Dos votos, do massacre
Eu fiz tudo sumir
Dei-me o direito
De criar como quisesse
Versão ora sombria
Ora alva, reluzente
Contudo o que eu via
E vejo quando quero
Involuntariamente
São corpos conhecidos
São faces luzidias
De toda aquela gente
Talvez presa em meu sonho
Talvez livre em devaneios
Vagando ou vivendo
Fui eu que me escondi?
Alguns me encontrarão?
Não sei, não me preocupo
Há um ano que os invento
Há um ano que os procuro
Oh, meu Deus, como lamento!
E por onde andarão?
Há um ano que alimento
Esta triste elocução
- Aonde estão?
Aonde estão?
Voltam todos, voltam sempre
No irromper desta visão
Pois a data é permamente
E nela, ao poente,
Brindam cegas e dementes
As sombras da ilusão
Os produtos irreais
Que emergem desta paz
Desta minha doce paz
Corriqueira
Verdadeira
Alucinação
Em plena consciência
Ausência
Razão.
