Orvalho rubro
O amanhã não existe
Em função de um hoje que morreu
Ninguém o velou
Porque ele não existe
E quem existe sou eu
*
Quisera ser o hoje em função do ontem
E nunca existir também
Quisera jamais ver os versos
Ou saber de onde eles vêm
*
Mas é necessária a vida
Que nunca rogou por nascer:
Assim que se abre a ferida
Não há como o sangue reter
*
Esvai-se, calando os sentidos
Que gritam sem se conter
Inferno é o som da ida
Que ao se tornar partida
Insiste em AMANHECER.

Olha, quando eu comecei a ler, eu pensei: Mais um poema.
E ainda, que todo poema seja em sua própria essência, sentimento, como diria baudelaire, “…Dizer que era poeta — é cousa velha:
No século da luz assim é todo…”.
Não você, porque talento não se forja com meia duzia de frases bem construidas, eis a questão: A alma do poeta é quem conduz as tuas ardentes e penosas descrições, sem ela, o poema é só mais um poema;
O seu, valeu a pena ler.
Parabéns!
Obrigada, Murilo!
Acho que já li isso nas suas coisas… Ou então são idéias semelhantes…
os versos abaixo seriam pleonasmo, talvez (?), visto que o hoje em função do ontem não existe e se você então o fosse, certamente também não existiria:
“Quisera ser o hoje em função do ontem/ E nunca existir também”
Pois é, e não por acaso, sempre amanhece, mas nem por isso queira não existir (seja qual for a essência desta palavra dentro do contexto). O som pode ser agradável ou não, intrínseco à sua expectativa, ao seu existir, à poesia.
(E quem quer reter o sangue?)